terça-feira, janeiro 20, 2026

Trump evita dizer se pretende usar a força para anexar a Groenlândia

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adotou um discurso mais cauteloso ao ser questionado sobre até onde estaria disposto a ir para assumir o controle da Groenlândia. Em entrevista por telefone à NBC News nesta segunda-feira (19), ele evitou responder se recorreria ao uso da força: “Sem comentários”, limitou-se a dizer.

A declaração ocorre após um fim de semana de forte tensão diplomática. No sábado (17), Trump anunciou que pretende impor tarifas a produtos de oito países europeus como forma de pressionar por um acordo para a compra da ilha. As taxas, inicialmente de 10%, entrariam em vigor em 1º de fevereiro e poderiam subir para 25% a partir de 1º de junho caso não haja avanço nas negociações. Entre os países afetados estão Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia.

No domingo (18), o presidente norte-americano voltou a elevar o tom contra a Dinamarca, acusando o país de não conter a influência russa na região ártica. Em publicação na rede Truth Social, afirmou que “chegou a hora” de resolver a questão da Groenlândia e acrescentou: “isso será feito!!!”. Segundo Trump, a Otan alerta há duas décadas para a necessidade de reduzir a presença russa na área, mas Copenhague “não fez nada” para enfrentar o problema.

No mesmo dia, a agência Reuters divulgou trechos de uma carta atribuída a Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, na qual o presidente afirma não se sentir mais obrigado a priorizar exclusivamente a paz por não ter recebido o Prêmio Nobel. “Agora posso pensar no que é bom e adequado para os Estados Unidos”, escreveu.

Rejeição e protestos na ilha

A proposta de anexação foi rechaçada tanto pelo governo dinamarquês quanto pelas autoridades autônomas da Groenlândia. Líderes de Copenhague reiteraram que o território não está à venda e lembraram que a ilha já é protegida pelo sistema de defesa coletiva da Otan.

Durante o fim de semana, manifestações tomaram as ruas da capital Nuuk. Moradores exibiram cartazes com a frase “A Groenlândia não está à venda”, agitaram bandeiras nacionais e protestaram contra o que consideram uma ameaça à autonomia local.

Relatos de habitantes ouvidos nos últimos dias indicam um misto de choque, indignação e medo diante das declarações de Trump. A maioria rejeita a ideia de se tornar parte dos Estados Unidos e demonstra apego ao modelo escandinavo de bem-estar social, com saúde e educação gratuitas. Ao mesmo tempo, reconhece a dependência econômica em relação à Dinamarca e teme ficar à margem das decisões sobre o próprio futuro.

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores da Groenlândia participou de reuniões em Washington com o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance, marcando a primeira vez que a ilha se envolve diretamente em tratativas desse nível. As conversas ocorrem sob a sombra das ameaças do presidente americano, que afirmou recentemente que “fará algo pela Groenlândia, quer eles gostem ou não”.

Com mais de três séculos de ligação com o Reino da Dinamarca, a maior ilha do mundo volta ao centro do tabuleiro geopolítico, pressionada por interesses estratégicos e militares que colocam em xeque sua autodeterminação.

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