sexta-feira, 3 de julho de 2026

Artigo: Quando ninguém percebe mais o que faz

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Uma cena que viralizou recentemente chamou a atenção: durante uma prática de rope jump uma jovem foi arremessada pelo equipamento sem estar conectada ao elemento mais básico da atividade — a corda. O mais intrigante, porém, não foi apenas o acidente, mas a sucessão de automatismos que o tornou possível.

O operador acionou o mecanismo sem conferir as condições de segurança. A jovem posicionou-se sem perceber que não estava presa à corda. Ao redor, outras pessoas observavam e registravam a cena, mas ninguém notou que faltava justamente o elemento indispensável para o exercício. Todos estavam presentes; ninguém estava, de fato, atento.

Dias depois, outro episódio inusitado. Uma portaria publicada no Diário Oficial da União trazia a nomeação de “Fulano de Tal” e “Cicrano [sic] de Tal” — expressões universalmente usadas como marcadores provisórios em rascunhos. O documento percorreu todo o trâmite institucional até ser publicado oficialmente. Passou por quem redigiu, revisou, autorizou e publicou. Em algum momento, o texto deixou de ser lido para apenas ser processado.

Os dois acontecimentos pertencem a universos completamente diferentes. Um envolve a prática de um esporte; o outro, a administração pública. Mas revelam o mesmo fenômeno: estamos substituindo a atenção pela execução.

Vivemos na era da eficiência. Fazemos mais em menos tempo, respondemos a mais mensagens, assinamos mais documentos, consumimos mais informações. Entretanto, talvez estejamos pagando um preço silencioso: a perda da presença.

Um dos maiores riscos da modernidade talvez seja a incapacidade de pensar sobre aquilo que fazemos. Não porque as pessoas sejam más ou incompetentes, mas porque passam a agir no piloto automático. Quando o hábito substitui a reflexão, deixamos de perguntar o que, de fato, faz sentido. Apenas seguimos o fluxo.

É curioso perceber que a tecnologia não é a única responsável por isso. Ela apenas potencializa um comportamento que já cultivamos: a pressa. A automação dos sistemas encontra uma humanidade que também se automatizou.

O dedo clica antes que os olhos leiam. O corpo executa antes que a mente confirme. O algoritmo acelera, mas somos nós que escolhemos viver sem pausas.

Talvez o problema mais profundo não seja a inteligência artificial. Seja o enfraquecimento da atenção humana.

Estamos treinando máquinas para pensar enquanto desaprendemos um dos exercícios mais humanos: perceber.

A pergunta, então, não é se a sociedade está mais tecnológica. É outra: que tipo de humanidade queremos preservar dentro dessa tecnologia?

Porque nenhuma inovação substituirá algo essencialmente humano: a capacidade de interromper o automático para perguntar se aquilo que estamos fazendo ainda faz sentido.

No fim, a vida raramente desmorona por grandes tragédias. Muitas vezes, ela muda de rumo por pequenas distrações repetidas diariamente.

E talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja criar pessoas mais produtivas.

Seja formar pessoas mais presentes.

Evelyne Correa é advogada e servidora pública. 

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