sexta-feira, 24 de julho de 2026

Presença de Abílio na Câmara incomoda, mas ele insiste; ‘é a casa do povo’

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Fonte: Gazeta Digital, créditos da imagem: Montagem GD

A tensão entre o Palácio Alencastro e a Câmara de Cuiabá vem crescendo com a presença frequente do prefeito Abílio Brunini (PL) nas dependências da Casa de Leis, durante sessão, para conceder entrevistas coletivas. O caso inflamou o plenário e gerou uma onda de protestos de vereadoras Maysa Leão (Republicanos) e Katiuscia Mantelli (Podemos). A queixa principal gira em torno do uso indevido de áreas restritas do Legislativo para desqualificar o trabalho dos parlamentares e desacreditar investigações internas.

A reação legislativa ganhou força após o chefe do Executivo utilizar a recepção da Câmara para rebater a rejeição da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e disparar adjetivos como “incompetentes”, “ineficientes” e “despreparados” contra os membros do parlamento. Na tribuna, a vereadora Maysa Leão expôs a frustração com o clima instalado na Casa, classificando o ambiente atual como “infrutífero e inútil para o povo cuiabano” diante de disputas de poder que ultrapassam os limites regimentais.

A parlamentar protestou para que o prefeito deixe de utilizar espaços da Câmara como sua sala de imprensa particular, alertando para o enfraquecimento institucional do Legislativo.

“O prefeito transformou a recepção desta Casa em um circo e em sua sala de imprensa particular para vilipendiar o nome de vereadoras. Isso não enfraquece a vereadora A ou B. Isso enfraquece esta Casa. Nunca foi visto algo assim”, disse durante a sessão desta quinta-feira (23).

A vereadora fez questão de enfatizar que a proposta não visa proibir a circulação do gestor como cidadão, mas sim preservar a independência do Poder Legislativo e o ambiente de trabalho reservado aos parlamentares.

Outro ponto central dos embates trata da apuração de denúncias de assédio sexual envolvendo aliados do Executivo. Rebatendo as acusações de Abílio sobre uma suposta “ineficiência” na apuração, a vereadora Katiuscia Mantelli subiu à tribuna para denunciar um boicote deliberado por parte do denunciado, o ex-chefe de gabinete do prefeito Willian Leite, e defendeu a instalação de uma CPI.

“O prefeito mentiu quando disse que todos os envolvidos foram ouvidos. Comissão Especial não tem poder de convocação, apenas convite. A vítima e secretários vieram, mas o principal suspeito se recusou a comparecer. Isso não é ineficiência, é boicote! Se não é possível avançar via comissão, vamos abrir uma CPI, porque nosso papel é investigar”, pontuou Katiuscia.

A parlamentar também apontou incoerências na postura de Abílio, sugerindo que o gestor deveria focar em dar explicações sobre notificações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) relativas à merenda e à educação, em vez de atuar dentro da sede do Legislativo.

Por sua vez, a presidente da Câmara, vereadora Paula Calil (PL), aliada do prefeito, interveio no debate para cobrar celeridade das parlamentares que integram a Comissão Especial na entrega do documento final da apuração.

“Todos nós queremos saber a verdade do que foi apurado. O prazo já extrapolou e precisamos que esse relatório seja protocolado à presidência para que seja lido em plenário. É de interesse de todos nós saber o que foi apurado sobre esse possível caso de assédio e desvios de recursos na Prefeitura”, explicou a presidente.

Ainda, Maysa Leão revelou como vinha sendo conduzida a elaboração do texto pela Procuradoria-Geral da Casa. A vereadora classificou como “ultrajante” o parecer preliminar sugerido pelo Procurador-Geral da Câmara, Eustáquio Inácio de Noronha Neto, acusado de atuar no expediente para favorecer o prefeito e de tentar minimizar a gravidade do depoimento de uma servidora grávida ao dizer que o acusado “apenas tentou roubar-lhe alguns beijos”.

O outro lado

Procurado pela imprensa no período da tarde, o prefeito rebateu as críticas sobre o uso das dependências da Câmara e inverteu o foco das acusações, sugerindo que a vereadora Maysa Leão estaria tentando cercear o trabalho dos jornalistas.

“Ela tem que reclamar é com vocês. Vocês que perguntam para mim. Se é do lado de dentro da recepção, na calçada ou em qualquer lugar que eu estiver, são vocês que perguntam. Se ela está querendo fazer algum tipo de empecilho ou impedir a atividade da imprensa, aí eu acho que cabe a ela esse questionamento com a imprensa”, disparou.

Abílio afirmou que não vai à Casa de Leis com o objetivo exclusivo de conceder entrevistas, mas sim para agendas pessoais e políticas, como conversar com parlamentares e com sua esposa, a vereadora Samantha Iris (PL). Segundo ele, o local onde fala com a imprensa é definido pela própria abordagem dos repórteres.

“Se eu estiver do lado de dentro, vocês perguntam. Se eu estiver na rua, vocês me perguntam. Se eu estiver na prefeitura, vocês me perguntam. Acredito que o que talvez a incomode seja que vocês estão querendo saber a minha opinião. A não ser que seja só para ela, né? De repente, ela quer ser mais entrevistada. Eu acho que você deveria entrevistá-la mais vezes, fazer mais perguntas a ela. E, se ela for à prefeitura, vocês a entrevistem lá também para ela se sentir à vontade”, provocou.

Ao finalizar, Abílio justificou sua presença ao afirmar que a Câmara é um espaço público e aberto.

“Aqui, se não me engano, é a casa do povo, né? Espaço democrático. Qualquer um pode entrar, qualquer um pode falar o que quiser e, se vocês quiserem perguntar, podem perguntar, não tem problema não”, concluiu.

Diante do cenário de desgaste entre os Poderes, as parlamentares contrárias às investidas do prefeito reforçaram que a exigência de limites a Abílio e a autonomia nas investigações visam resgatar a dignidade e o respeito à história do Parlamento Cuiabano.

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