Rayan Borges
Parte do parlamento municipal de Cuiabá ainda não digeriu a atuação do chefe do Executivo, Abilio Brunini (PL), na eleição da Mesa Diretora. Um dia após vereadores ocuparem a tribuna com duras críticas ao prefeito, o vereador Ilde Taques (Podemos) — principal adversário da atual presidente, Paula Calil (PL) — afirmou que a interferência no processo interno do Legislativo provocou um efeito reverso e deve ampliar a vantagem de seu grupo na eleição marcada para agosto.
Para Ilde, a iniciativa do prefeito representa uma interferência indevida na autonomia da Câmara. Ele avalia que a manobra para favorecer a reeleição de Paula Calil comprometeu a governabilidade de Abilio, fortalecendo uma oposição que, até então, contava com uma média de apenas quatro integrantes.
“Chega ao cúmulo do absurdo essa intervenção na eleição da Mesa da Câmara. É apenas uma cortina de fumaça para mudar o regimento, instituir a votação por maioria simples e permitir que a Paula ganhe, porque hoje ela não tem os 18 votos necessários. Todo mundo ficou revoltado. Nunca vi um prefeito aceitar perder a governabilidade por causa de uma eleição de Mesa. Não sei qual é essa ânsia de querer a Paula [no cargo]”, criticou o vereador.
O parlamentar também rebateu a narrativa de que a resistência à candidatura de Paula Calil teria motivação de gênero, classificando o argumento como uma tentativa de desviar o foco da discussão real.
“Falar que as mulheres são machistas por não querer apoiar outra mulher é totalmente errôneo. Essas mesmas vereadoras apoiaram a Paula para ela estar onde está hoje”, pontuou.
Apesar das críticas contundentes à postura do Executivo, Ilde ressaltou que nunca fez oposição pessoal à candidatura da atual presidente e que tentou construir um entendimento entre as bancadas.
“Desde o início eu sempre falei que não sou contra a eleição da Paula. Sempre busquei o consenso. Quando ela quis ser candidata, achei legítimo. O problema atual é puramente essa intromissão do Executivo.”
Cenário de Votos e Batalha Regimental
O parlamentar projeta que a crise vai fortalecer sua própria candidatura. Ele afirma contar com o apoio consolidado de 13 vereadores, mas acredita que o grupo deve crescer caso a tentativa de alteração do Regimento Interno da Casa não prospere.
“Hoje nosso grupo tem 13 vereadores. Se a Paula não conseguir mudar o regimento, esse número vai aumentar. Já existem conversas nesse sentido e acredito que chegaremos à votação com 16 ou 17 votos”, previu.
Pelas regras vigentes, são necessários 14 votos para eleger o presidente da Câmara. Segundo Ilde, qualquer mudança casuística no Regimento Interno para beneficiar a atual presidente esbarraria em prazos legais para produzir efeitos na eleição deste ano, o que também deve influenciar o desfecho da disputa.
O prefeito Abilio Brunini ingressou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). A ação visa derrubar dispositivos do Regimento Interno da Câmara — entre eles, a exigência de quórum qualificado de dois terços (18 votos) para alterar as regras da Casa. A medida judicial foi amplamente interpretada pelos parlamentares como uma tentativa direta de interferência para garantir a recondução de Paula Calil.

