Fonte: Gazeta Digital, créditos da imagem: Gábor Bejó por Pixabay
O tempo passa, mas algumas ausências continuam presentes em músicas, fotografias e histórias que atravessam gerações.
Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, é uma data marcada por homenagens e lembranças de pessoas que já morreram; a saudade não se limita a um dia no calendário. Ela aparece em uma fotografia guardada, em uma música que toca inesperadamente, no perfume que permanece ou em um hábito que traz de volta a presença de quem partiu.
Para Lucinei Flores, de 64 anos, a lembrança do filho Rafael Ferreira Flores está presente nos pequenos detalhes da rotina. O sorriso, as brincadeiras e a alegria do filho são recordações que o tempo não apagou. Sete anos após a perda, ela ainda encontra maneiras de sentir a presença dele nas memórias que guarda com carinho.
“Meu filho querido era muito alegre e sorria muito. Ele contava piadas só para me ver dar risadas”, recorda Lucinei Flores.
Entre as lembranças mais marcantes está o gosto de Rafael por soltar pipa. A imagem de uma criança brincando ao ar livre é suficiente para despertar a saudade e trazer de volta momentos compartilhados com o filho.
“Quando ele via um vento, ia soltar pipa. Eu fico muito emocionada quando vejo criança soltando pipa”, conta Lucinei Flores.
A mãe também preserva objetos que ajudam a manter viva a memória de Rafael. O perfume e as fotografias guardadas no quarto dele continuam fazendo parte de sua história e representam uma forma de proximidade diante da ausência física.
“Eu tenho o perfume dele ainda e as fotos que estão no quarto. Eu não esqueço nunca, porque ele está nos meus pensamentos e no meu coração”, afirma Lucinei Flores.
Para Lucinei, o Dia de Finados é um dos momentos mais difíceis do ano. A data intensifica a saudade e faz com que a ausência do filho seja sentida de maneira ainda mais profunda por toda a família.
“O Dia de Finados é o dia mais triste para mim. Choro muito. Parece que o tempo não passou, a saudade dói muito em mim, no pai dele, no irmão, na irmã e na sobrinha também”, relata Lucinei Flores.
Mesmo diante da dor, as lembranças de Rafael continuam sendo compartilhadas entre os familiares. O irmão costuma publicar fotografias nas redes sociais em homenagem a ele, mantendo sua história presente também para outras pessoas.
Ao falar sobre o filho, Lucinei destaca a dedicação, a alegria e o sorriso que marcaram sua personalidade. A mensagem que gostaria de deixar para Rafael resume o sentimento que permanece mesmo depois da despedida: “Amo muitooo meu anjo dourado da minha vida” fala Lucinei Flores.
O pai que continua sendo herói
A saudade também acompanha Christiane Gonçalves, de 47 anos, que perdeu o pai, William Gonçalves, conhecido como Zelito. Mesmo após 27 anos, as lembranças da infância e da relação de carinho entre os dois continuam vivas.
Para ela, o pai era mais do que uma figura familiar: era seu herói, alguém com quem construiu uma relação de proximidade e afeto.
“Os abraços, os conselhos, os carinhos… Nós éramos muito unidos”, lembra Christiane Gonçalves.
William exerceu diferentes profissões, entre elas a de caminhoneiro. Na infância, Christiane aguardava com alegria os momentos em que ele voltava para casa. As chegadas eram acompanhadas de conversas, histórias e lembranças que se tornaram parte importante de sua memória afetiva.
“Quando ele chegava, era aquela festa. Tínhamos muitos causos e passávamos tempos conversando. Isso, quando eu era criança, lembro bem”, conta Christiane Gonçalves.
Falar sobre o pai ainda desperta emoções intensas. Ao mesmo tempo em que revisitar essas recordações pode ser difícil, Christiane encontra nas conversas uma oportunidade de demonstrar o amor que continua sentindo.
“Eu amo tanto meu pai. Para mim, está sendo difícil falar sobre essas perguntas, mas, ao mesmo tempo, é um alívio, porque falar do meu pai é um momento de prazer e paz para mim”, relata Christiane Gonçalves.
Algumas lembranças chegam acompanhadas de música. A canção “Pai”, do cantor Fábio Jr., emociona Christiane por fazê-la recordar a relação que viveu com Zelito. “Choro muito, principalmente quando ouço a música ‘Pai’, do cantor Fábio Jr. Ela descreve tudo do meu pai”, diz Christiane Gonçalves.
Nas homenagens, Christiane mantém seus próprios rituais. Em casa, costuma rezar e acender velas, gestos que fazem parte de sua maneira de recordar e homenagear o pai.
Ao longo dos anos, a chegada dos filhos também trouxe novas experiências e ajudou a tornar a saudade menos dolorosa. Ela destaca, ainda, a importância da parceria do marido, que esteve ao seu lado nos momentos difíceis.
“A saudade minimizou com a chegada dos meus filhos, que vieram para preencher esse vazio que meu pai deixou, e com a parceria do meu esposo, que nunca me deixou nos momentos difíceis, sempre esteve comigo, lutando dia a dia”, fala Christiane Gonçalves.
Os ensinamentos de William continuam presentes na forma como Christiane enxerga a vida. A honestidade, o respeito ao próximo e o amor pelo que se faz são valores que ela guarda como parte do legado deixado pelo pai.
Ao resumir o significado dele em sua história, a filha reforça que a admiração permanece, apesar da ausência e das imperfeições que fazem parte de qualquer relação.
“Pai, o senhor, para mim, sempre será meu herói, apesar dos nossos defeitos, pois não somos perfeitos”, declara Christiane Gonçalves.
A saudade também faz parte da rotina de Geneci Ferreira, que perdeu a mãe, Lourdes Maria Ferreira, há um ano e dois meses. Desde a despedida, as lembranças da convivência entre as duas permanecem presentes nos detalhes do dia a dia, desde os lugares da casa até os momentos simples que compartilhavam.
Entre as recordações mais marcantes estão as noites em que assistiam televisão juntas até tarde. Para Geneci, são essas experiências cotidianas que ajudam a manter viva a memória da mãe.
Desde que acorda, diferentes lugares e situações a fazem lembrar de Lourdes. A ausência também trouxe reflexões sobre a brevidade da vida e a importância de valorizar o tempo ao lado de quem se ama. Uma das maneiras que Geneci encontrou de homenagear a mãe é cuidar das plantas que ela deixou. Com carinho, mantém os cuidados que Lourdes gostava de dedicar a elas, transformando esse gesto em uma forma de preservar algo que fez parte da vida das duas.
Embora a saudade continue presente, Geneci procura recordar a mãe com alegria, valorizando os momentos felizes que viveram juntas. Os ensinamentos deixados por Lourdes, como educação, respeito e princípios, também permanecem como parte do legado que a filha carrega consigo.
Para Geneci, a dor da perda pode se tornar mais amena com o tempo, mas a saudade não desaparece. O amor e a gratidão continuam fazendo parte de sua história e da maneira como ela mantém a presença da mãe em suas lembranças.
Ao homenagear Lourdes, Geneci deixa uma mensagem que resume o sentimento que permanece mesmo após a despedida: “Gostaria de dizer que sempre a amei e sempre vou amar, e que sou muito grata por tudo”, declara Geneci Ferreira.
O luto não tem prazo para terminar
As experiências de Lucinei, Christiane e Geneci mostram que a saudade pode se manifestar de diferentes maneiras e que cada pessoa encontra seus próprios caminhos para conviver com a perda. Para a psicóloga Anny Kariny Santana de Arruda, o luto é uma experiência profunda, capaz de afetar diferentes áreas da vida.
“A perda de alguém importante pode despertar tristeza, saudade, culpa, raiva, medo, sensação de vazio e até dificuldades para dormir ou se concentrar. Cada pessoa vivencia esse processo de uma maneira, pois o luto também é influenciado pela história, pelo vínculo construído e pelo significado que aquela pessoa tinha em sua vida”, explica Anny Kariny Santana.
Segundo a psicóloga, datas como o Dia de Finados podem intensificar esses sentimentos porque carregam significados afetivos, culturais e familiares. Músicas, cheiros, fotografias e tradições também podem despertar emoções que pareciam menos presentes no cotidiano.
“Isso não significa necessariamente que a pessoa esteja regredindo no processo de luto, mas que aquele vínculo continua tendo significado. Precisamos respeitar esses sentimentos e compreender que, em algumas datas, a saudade pode se tornar mais presente e exigir de nós um cuidado emocional maior”, afirma Anny Kariny Santana.
Nesse processo, preservar lembranças pode ser uma maneira de reconhecer a importância de quem morreu. Fotografias, histórias compartilhadas e homenagens ajudam a manter viva a história construída e os ensinamentos deixados por essas pessoas.
“A morte interrompe a presença física, mas não apaga a história construída, os ensinamentos, os momentos compartilhados e a influência que aquela pessoa teve em nossa vida”, destaca Anny Kariny Santana.
A especialista ressalta que seguir em frente não significa esquecer quem morreu ou deixar de sentir amor. É possível construir novos caminhos, viver outras experiências e encontrar momentos de alegria sem que isso diminua a importância de quem partiu.
“É possível continuar vivendo, construindo novos caminhos e, ao mesmo tempo, manter um lugar afetivo para quem partiu. O importante é que essas lembranças sejam vivenciadas de uma maneira que faça sentido para cada pessoa”, explica Anny Kariny Santana.
A psicóloga também lembra que não existe um tempo certo para superar uma perda. O luto não segue um calendário nem acontece de forma linear. Enquanto algumas pessoas conseguem retomar atividades cotidianas mais rapidamente, outras precisam de mais tempo e apoio.
A ajuda profissional pode ser importante quando o sofrimento se torna difícil de administrar, compromete significativamente a rotina, os relacionamentos ou o autocuidado, ou quando a pessoa sente que não consegue lidar com a ausência. O isolamento e a desesperança também merecem atenção.
Para atravessar esse período, Anny orienta que as pessoas reconheçam os próprios sentimentos, conversem com pessoas de confiança e encontrem maneiras de expressar a saudade, seja por meio de homenagens, da escrita ou da preservação de tradições familiares.
“Lidar com a saudade começa pelo reconhecimento de que não precisamos esconder nossos sentimentos nem nos cobrar para estar bem o tempo todo”, orienta Anny Kariny Santana.
No Dia de Finados, entre homenagens, orações e lembranças, histórias como as de Lucinei e Christiane mostram que o amor não desaparece com a morte. Ele permanece nos gestos, nos ensinamentos, nas histórias contadas e nos detalhes que continuam fazendo parte da vida. A saudade pode mudar com o tempo, mas a memória de quem foi importante encontra maneiras de permanecer.




