EDUARDO MILITÃO
METRÓPOLES
O deputado federal Juarez Costa (Republicanos-MT) é acusado por ex-executivos da Aegea — líder no setor privado de saneamento básico no Brasil — de receber R$ 30 milhões em propina e uma BMW. Os repasses teriam ocorrido no período em que ele comandava a Prefeitura de Sinop (MT), entre 2009 e 2016, com o objetivo de facilitar os negócios da empresa no município. Procurado pela reportagem, o parlamentar não quis comentar o assunto.
As acusações constam nos acordos de colaboração premiada de cinco executivos da companhia, firmados com o Ministério Público entre 2020 e 2021, aos quais a reportagem teve acesso. Os termos foram homologados em 2025 pelo ministro Raul Araújo, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
O esquema da gigante do saneamento
A Aegea atua em 890 cidades e atende a 39 milhões de pessoas. À Justiça, seus ex-gestores confessaram o pagamento de R$ 63 milhões em propinas entre 2010 e 2018, englobando 20 municípios de seis estados.
No mesmo período em que os executivos relatavam a corrupção, a Itausa (holding controladora do Itaú Unibanco) aportou R$ 1,3 bilhão na Aegea. Em julho de 2021, a Itausa ampliou sua participação com mais R$ 1,2 bilhão, detendo atualmente cerca de 13% do capital social da concessionária.
Dívidas de campanha e BMW de luxo
O ex-presidente da Aegea, Hamilton Amadeo, relatou aos procuradores que autorizou repasses somando R$ 30 milhões ao então prefeito até 2018. Segundo ele, os recursos eram destinados a quitar dívidas de campanha de Juarez Costa.
Amadeo também declarou que, em 2014, o político exigiu uma BMW como parte do suborno. Após autorizar a compra, o então prefeito alterou regras e criou leis que beneficiaram diretamente a empresa em Sinop.
O ex-diretor financeiro da Aegea, Flávio Crivellari, detalhou a aquisição do veículo:
O carro custou R$ 330 mil à época — o equivalente a cerca de R$ 625 mil em valores corrigidos pela inflação. O automóvel foi adquirido e transferido por intermédio do operador Eduardo Valdívia, consultor terceirizado da concessionária.
Dinheiro em espécie na praia e contratos superfaturados
Outros três ex-funcionários da cúpula da empresa — Felipe Bueno Marcondes Ferraz (diretor administrativo), Mário Roberto Amorim Baltar (comercial) e Fernanda Bassanesi (gerente técnica) — confirmaram os repasses.
Ferraz detalhou o funcionamento do “caixa 2” a partir de 2015. Segundo ele, o prefeito utilizava três emissários para retirar dinheiro em espécie na sede da Aegea, em São Paulo, além de entregas em Cuiabá (MT) e Santa Catarina.
Entre 2015 e o início de 2016, cerca de R$ 1,2 milhão foi entregue a intermediários de Costa em uma esquina movimentada de Balneário Camboriú (SC) (no cruzamento da Avenida Brasil com a Rua 3.300). O pagador viajava com o telefone do contato anotado e combinava a entrega na rua.
Coincidência com investigações passadas
Em setembro de 2016, Juarez Costa foi alvo de busca e apreensão na Operação Sorrelfa, do Ministério Público de Mato Grosso, que cumpriu mandados justamente em Santa Catarina.
Na época, a imprensa local revelou que investigadores encontraram cheques da empreiteira RJD Construções pagando despesas pessoais e imóveis do prefeito em Balneário Camboriú. Em sua delação, Felipe Ferraz confirmou que a Aegea remunerava a RJD por serviços superfaturados em 20%. Como a construtora recebeu R$ 23,5 milhões do grupo, estima-se que R$ 4,7 milhões foram desviados para o político por meio desse mecanismo.
Combustível fictício para mascarar repasses
O ex-diretor comercial Mário Baltar afirmou que, entre 2013 e 2014, recebeu pedidos de Costa que somaram R$ 3.083.275 para despesas eleitorais. Para disfarçar o dinheiro, a Aegea simulou a compra de combustíveis em quatro postos de Sinop indicados pelo próprio político.
As transferências fracionadas foram feitas pelas subsidiárias Águas de Guariroba e Nascentes do Xingu. Flávio Crivellari confirmou que as compras eram totalmente fictícias e que a empresa Foccos Engenharia, de Eduardo Valdívia, era usada para solicitar os adiantamentos que abasteciam o esquema.
O que dizem os envolvidos
Juarez Costa: A reportagem buscou esclarecimentos com o deputado enviando perguntas por escrito, por e-mail e visitando seu gabinete na Câmara Federal por duas vezes. Não houve resposta. Nas declarações de bens de 2020 e 2022 entregues à Justiça Eleitoral, o parlamentar alegou perda de patrimônio (avaliado em R$ 2,2 milhões) e afirmou não possuir nenhum carro. A BMW nunca foi declarada.
Aegea: A assessoria informou que não comentaria o caso da BMW. Em comunicado recente ao mercado financeiro, a companhia declarou que as práticas ilícitas ficaram no passado e que os acordos com o MPF visam “fortalecer seu compromisso com a ética e assegurar sua integridade corporativa”.
Judiciário: O ministro Raul Araújo informou, via assessoria, que está legalmente impedido de prestar informações sobre o caso, por se tratar de um processo sob sigilo de Justiça.

